quinta-feira, 16 de julho de 2009

*********SÓ SEI QUE NADA SEI*********

..............
SÓCRATES

Se Sócrates admite nada saber, e faz profissão de fé de sua ignorância, como pôde ser considerada a sua frase a mais perfeita descrição de filósofo?

Atenas, Antiga Grécia, 501 homens magistrados se reúnem para ouvir o que o sábio Sócrates teria a dizer a seu respeito para se defender das acusações feitas por Meleto, Anito e Licão. Contra o filósofo grego pesavam duas graves denúncias para a época: atentar desfavoravelmente contra a religião oficial e corrupção dos jovens. O discurso de defesa de Sócrates, foi apresentado por Platão, seu fiel discípulo, em uma pequena obra consagrada como um clamor a favor da dignidade e razão humanas.
Aos setenta anos de idade e pela primeira vez num tribunal, Sócrates expõe com serenidade e sabedoria a sua defesa, mostrando com clareza aos juizes a irrelevância das denúncias de seus acusadores, pois para aqueles que haviam professado os seus ensinamentos, não se julgou serem testemunhos de má-fé. Sua maneira de apresentar seus discursos consistia na interpelação e no provável reconhecimento do interlocutor dos seus próprios equívocos.
Sócrates associava sua pessoa com a figura de sua mãe que era uma obstetra. Ele era o “parteiro” que acompanhava os “grávidos” da verdade ou do conhecimento, até o nascimento do “filho”. A essa técnica damos o nome de Maiêutica. O método socrático. Sócrates buscava o nascimento do espírito, o uso livre da razão.
Auditório lotado, pessoas de seu conhecimento, inclusive muitos dos que fizeram escola com o filósofo, foram citados no discurso e usados como ilustração da verdade afim de confrontar o acusador que dizia ser ele quem corrompia os jovens e desestabilizava a ordem da polis. Sócrates desmascarava “os deuses” e professava ouvir a “voz de deus” que lhe falava no oráculo e isso incomodava alguns dos atenienses magistrados e políticos.
Como de costume e conforme sua pregação, Sócrates mantinha sua postura longe de qualquer soberba, porém, jamais se mostrou humilhado perante os poderes da cidade. Ao contrário, Sócrates usava o poder da sua dialética, da sua perspectiva destrutiva dos valores instituídos, desbancava argumentos equivocados dos políticos corrompidos. Ele fala da cidade de Atenas com propriedade e traz , em retrospectiva, como lembrança dos eventos que o levaram até o julgamento, porém se mostra totalmente desligado de cadeias que lhe pudessem inibir os movimentos, ou fazer dele um instrumento do poder, lembrando que nunca se envolveu com a política por ouvir a “voz de um deus ou de um gênio” que lhe barrava contra essa atividade.
Impressionante notar em Sócrates, mais do que em qualquer outro grande pensador, sua ligação com o humano no que tange a sua alma. A filosofia ganha com Sócrates um espaço amplo que não se limita num círculo fechado, mas sim na praça pública, no ginásio, no mercado, e na dimensão da alma humana. Por um questionamento preciso e incisivo, Sócrates leva as pessoas a tomarem decisões definidas e enfrentar as dificuldades, ou seja, força-os a cederem diante de uma evidência. Em face de sua própria morte ele defendia a tese de que era melhor morrer cumprindo a lei do que viver em descumprimento da lei.
Para ser diferente dos naturalistas que filosofavam nas nuvens e que jamais encontravam soluções práticas para a vida no dia a dia, para se diferenciar dos sofistas que se colocavam em pedestais para serem enaltecidos por serem intitulados sábios a ponto de cobrar pelo que ensinavam, para ser diferente dos políticos que usavam da persuasão da palavra com fins eleitoreiros para se manterem no jogo do poder, Sócrates usou a célebre frase: Só sei que nada sei....
Usando o processo de interrogação contínua, Sócrates leva o interlocutor gradativamente à meta, que é o conceito, elemento constitutivo da ciência. A descoberta socrática do conceito é o ponto culminante do seu método, levando o interlocutor a confessar a própria ignorância e rejeitar o dogmatismo inicial.
Só sei que nada sei, foi a expressão mais inteligente que um sábio expôs. Essa contradição mostra a ignorância do homem que não consegue resolver o problema da própria ignorância, porque se eu sei que nada sei então eu sei alguma coisa, mas isso não me torna um sábio. O sábio entende que nada sabe diante da suprema sabedoria divina e que toda sua suposta sabedoria se limita em nada saber.
Podemos sem sombra de duvidas atribuir a Sócrates a mais perfeita descrição de filósofo pelo conteúdo de sua ciência que esta focada na realidade moral do homem, que reflete os esforços, os impulsos, as paixões, que formam o ideal prático da vida humana. A moral é elevada a ciência e o saber se torna a força da vida prática. Sócrates da uma verdadeira aula de vida quando assume sua postura em não fugir das cadeias e nem mesmo da morte, porque sua liberdade estava acima das prisões e condenações humanas.

professor
JOÃO LEANDRE JORGE

Nenhum comentário:

Postar um comentário