A origem da consciência do tempo
A origem da consciência do tempo está relacionada aos estados vividos dos fenômenos. A forma temporal marcada por esses estados vividos é a intencionalidade, a qual nos permite compreender tanto a constituição dos objetos temporais quanto o próprio tempo da consciência.
A intencionalidade temporal se caracteriza pela unidade e identidade sintética dos objetos, pois a consciência do tempo é a essência da experiência intencional.
Husserl inicia, nas Lições, a sua investigação sobre o tempo na consciência a partir de uma análise dos objetos temporais, porque a temporalidade subjetiva se constitui sempre fenomenologicamente.
E os objetos temporais, afirma Husserl, são aqueles “que não são apenas unidades no tempo, mas que contêm também em si mesmo extensão temporal.” Com a expressão “extensão temporal”, queremos dizer que há uma duração no modo como percebemos o objeto. A duração é, portanto, o ponto mais importante dos objetos temporais.
Para demonstrarmos isso, tomemos a percepção do som de uma melodia como exemplo. Cito:[...] a coisa parece em princípio muito simples: nós ouvimos a melodia, quer dizer, percepciona-mo-la, porque ouvir é percepcionar. Soa, entretanto, o primeiro som, vem depois o segundo, depois o terceiro, etc. (Husserl, 1994, p. 56).
Ao ouvir o som de uma melodia, percebemos o som numa seqüência, o primeiro, o segundo, etc. Ora, se percebemos os sons numa seqüência, isto significa que quando ocorre o segundo som, o primeiro já não se revela. Mas, ao ouvir a melodia, não ouvimos os sons separadamente, ao contrário, eles aparecem à consciência numa unidade e identidade.
Se analisarmos com mais precisão os sons presentes na melodia, vemos que o próprio som tem uma duração que chega à consciência num fluxo contínuo, mas numa multiplicidade de modos de consciência. Assim, afirma Husserl:
“Cada som tem ele próprio uma extensão temporal; com o toque, ouço-o como um agora, mas com o ressoar, ele tem um agora sempre novo e o precedente converte- se
Husserl
Desse modo, quando apreendemos o som, ele se dá numa unidade sintética, mas que é formado por uma multiplicidade de dados.
Quando o som se inicia, ele é dado temporalmente num agora, mas este agora que foi percebido passa e um novo conteúdo do som apresenta-se como um agora. A sua duração corresponde à simultaneidade de fases “todas as suas fases singulares que escorrem uniformemente para o passado, como também escorre para o passado toda a duração do som, eu tenho a consciência do mesmo som, ou do som idêntico, e como durando um agora”.
A extensão total do som corresponde a esta fase que sempre aparece como agora e se produz de modo vivo; quando todas as fases se escoam para o passado, o som é morto.
Assim, do ponto de vista objetivo, temos na consciência dos objetos e processos que duram e que tem diferentes caracteres temporais (presente, passado...) e nós os percebemos como idênticos em todo o fluxo que escorre para o passado.
Em relação ao ponto de vista subjetivo, o fenômeno ocorre numa sucessão temporal que também escorre para o passado, no entanto, não temos a consciência dos diferentes estados temporais.
Após entendermos o modo como o tempo objetivo é formado, passamos a analisar a temporalidade imanente da consciência. O tempo objetivo se constitui na imanência da consciência fenomenológica, a partir da duração imanente. Todos os objetos exteriores possuem uma duração e nós só conseguimos captar essa duração porque a própria forma que o captamos são processos temporais, fluxos contínuos e têm, portanto, uma duração imanente.
No que diz respeito à duração imanente, Husserl vai afirmar, nas Meditações Cartesianas que ela, em correlação com a consciência imanente do tempo, é a forma fundamental de toda e qualquer síntese. Cito: A forma fundamental desta síntese universal, que torna possível todas as outras formas de síntese da consciência, é a consciência imanente do tempo. Correlativamente corresponde-lhe a própria duração imanente, em virtude da qual todos os estados do eu, acessíveis à reflexão, se devem apresentar como ordenados no tempo – simultâneo ou sucessivo, - no seio do horizonte infinito e permanente no próprio tempo imanente.
Neste sentido, a duração imanente é a duração dos atos intencionais. E a temporalidade imanente dos atos intencionais é diferente da temporalidade dos objetos exteriores, mas ambos fazem parte do próprio fluxo do tempo imanente à consciência.
Assim, ao estudar a intencionalidade da consciência, verificamos que ela ocorre na relação entre o sujeito que pensa e o seu objeto de pensamento, pois a consciência está sempre direcionada para um objeto. Este direcionamento da consciência é o que Husserl denominou de intencionalidade. Além disso, o objeto é sempre para uma consciência. Sem esta relação, não haveria nem sujeito que pensa, portanto, consciência, e nem objeto.
Para demonstrarmos a relação entre o sujeito que pensa, e seu objeto de pensamento, buscamos, primeiramente, entender como o eu cartesiano contribuiu para que Husserl pensasse a consciência fenomenológica. Pois, segundo Husserl, Descartes chegou à intuição originária ao demonstrar que o eu penso é a primeira verdade apodítica.
Mas o seu erro foi ter concebido o eu penso como uma substância que é o ponto de partida para todo conhecimento e, por conseguinte, desprovido de uma relação com seu pensamento. E para assegurar essa primeira verdade, Descartes recorreu à idéia de Deus e das matemáticas, retornando à atitude natural.
Mas para elaborar uma filosofia radical, Husserl fez uma redução fenomenológica, isto é, colocou entre parênteses tanto as coisas dadas no mundo como existentes, como também o eu psicológico. E a primeira evidência apodítica que temos na consciência após a redução é o eu penso e os objetos dos seus objetos de pensamento. Por essa razão, Husserl propõe que voltemos às coisas mesmas, porque delas emerge todo o conhecimento. Voltar às coisas mesmas significa retornar ao modo como os fenômenos aparecem à consciência. A consciência está sempre direcionada para um objeto e o objeto só pode ser definido em relação a uma consciência.
É esta relação da consciência como os objetos fenomenológicos que Husserl analisa e descreve. E os objetos aparecem na consciência sob a forma de essência. Isto significa que na consciência cada objeto é significado, tem uma essência, sem a qual este objeto deixaria de ser ele mesmo.
Além disso, percebemos que a consciência também possui um caráter bi-lateral, isso significa que os objetos aparecem à consciência como unidades dotadas de sentido e como idênticos a si mesmos. No entanto, em cada vivência que temos deles, temos uma multiplicidade de aspectos.
Isto ocorre porque, em cada apresentação que temos do objeto, ele se dá num agora que se escorre para o passado, dando lugar a uma nova apresentação que também se apresenta num agora e, assim, ocorre sucessivamente. Em cada apresentação do objeto ele se mostra num dos seus múltiplos aspectos; no entanto, a consciência os sintetiza formando uma unidade e uma identidade.
Esta capacidade da consciência de sintetizar os vários aspectos do objeto numa unidade e identidade é o que permite pensarmos a sua temporalidade. O tempo pode ser pensado como objetivo e como imanente à consciência.
No que se refere ao tempo objetivo, ele se forma a partir da duração de cada aspecto do objeto. Já o tempo imanente, refere-se à duração dos atos intencionais.

Nenhum comentário:
Postar um comentário