Os caminhos da Fenomenologia
Para facilitar a compreensão sobre fenomenologia, procuramos esclarecer com breves palavras o que significa o positivismo. Positivismo é um conceito de perspectivas filosóficas e científicas que se iniciou no século XIX.
O positivismo era a maneira de pensar que o pensamento positivo realizava os desejos, que ele tinha "poderes". Do seu início, com Augusto Comte (1798-1857) na primeira metade do século XIX até o seu apogeu e crise no século XX, o sentido da palavra mudou radicalmente, incorporando diferentes significados, muitos deles opostos ou contraditórios entre si.
Para Comte, o Positivismo é uma doutrina filosófica, sociológica e política. Surgiu como desenvolvimento sociológico do Iluminismo, das crises social e moral do fim da Idade Média e do nascimento da sociedade industrial - processos que tiveram como grande marco a Revolução Francesa (1789-1799).
De forma global, o positivismo propõe à existência humana valores completamente humanos, afastando radicalmente a teologia e a metafísica (embora incorporando-as em uma filosofia da história). Assim, o Positivismo associa uma interpretação das ciências e uma classificação do conhecimento a uma ética humana radical, desenvolvida na segunda fase da carreira de Comte.
Uma nova corrente filosófica denominada Fenomenologia, nascida na segunda metade do século XIX, opõe-se ao pensamento positivista do mesmo século.
1.1.2 Principais conceitos da fenomenologia
A Fenomenologia começa partir das análises de Franz Brentano sobre a intencionalidade da consciência humana. A fenomenologia trata de descrever, compreender e interpretar os fenômenos que se apresentam à percepção. Propõe a extinção da separação entre "sujeito" e "objeto" e examina a realidade a partir da perspectiva de primeira pessoa.
Edmund Husserl, Martin Heidegger, Jean-Paul Sartre e Maurice Merleau-Ponty foram alguns dos principais filósofos fenomenologistas do século XX.
Edmund Gustav Albrecht Husserl foi um filósofo alemão nascido numa família judaica, conhecido como fundador da fenomenologia. Ele foi aluno de Franz Brentano, e influenciou os alemães Edith Stein, Martin Heidegger, e os franceses Jean-Paul Sartre, Maurice Merleau-Ponty, entre outros.
Em 1887, Husserl converte-se ao cristianismo e junta-se à Igreja Luterana. Como aposentado, Husserl continua suas pesquisas e atividades nas instituições de Friburgo, e foi demitido por Heidegger seu ex-aluno e membro do partido Nazista, por causa de sua ascendência judia.
O método fenomenológico se define como uma volta às coisas mesmas, isto é, aos fenômenos, aquilo que aparece à consciência, que se dá como objeto intencional.
Seu objetivo é chegar à intuição das essências, isto é, ao conteúdo inteligível e ideal dos fenômenos, captado de forma imediata.
Toda consciência é consciência de alguma coisa. Assim sendo, a consciência não é uma substância, mas uma atividade constituída por atos (percepção, imaginação, especulação, volição, paixão, etc), com os quais visa algo.
Uma definição simples dirá que a principal característica da consciência é de ser sempre intencional. A análise intencional e descritiva da consciência definirá as relações essenciais entre atos mentais e mundo externo.
As essências ou significações (noéma) são objetos visados de certa maneira pelos atos intencionais da consciência (noésis). A fim de que a investigação se ocupe apenas das operações realizadas pela consciência, é necessário que se faça uma redução fenomenológica ou Epoché, isto é, coloque-se entre parênteses toda a existência efetiva do mundo exterior.
Na prática da fenomenologia efetua-se o processo de redução fenomenológica o qual permite atingir a essência do fenómeno. A redução fenomenológica nada mais é do que colocar toda a existência do mundo dado pela atitude natural “entre parênteses”, porque dele não podemos extrair nenhuma verdade de fato que seja incontestável.
1.1.3 Compreensão de temporalidade husserliana
“A fenomenologia tende à verdade, mas a uma verdade em constante movimento; ela antecipa o fato de que toda verdade alcançada é relativa em um horizonte possível e sistemático, e que em todas as direções pré-desenhadas de cumprimento, o que já está atualmente realizado e mais completo é a verdade verdadeira, na qual, no entanto, está incluída, como aproximação, como grau imperfeito, aquela anterior”.
Husserl
A indagação fenomenológica sobre a estrutura e a consciência do tempo deve ser desenvolvida como se tratasse de determinações lógicas. Há, portanto, uma clara oposição entre a postura cognoscitiva fenomenológica e a lógica empírico-experimental.
Esta não só se encontra na dificuldade de ter de explicar a origem das estruturas da experiência e do conhecimento, mas também a ordem dos fatos que acontecem no tempo. Husserl entende que uma evidência só existe em sua efetiva vivência, que se renova a todo instante.
Uma verdade, de fato, só pode ser apreendida em seu devir, devir que não pode ser um conjunto computável de atos psíquicos, mas temporalidade vivenciada.
Nesse sentido, o processo temporal não representa uma parte real do fluxo das experiências, mas uma imanência ideal mediante a qual sempre podemos retornar às evidências adquiridas, antecipando outras, novas, e abrindo um horizonte de potencialidades infinitas.
Percebendo até o fim as dificuldades da psicologia empírica dos meados do século XIX , Husserl tenta reverter a situação, respondendo à questão da origem por meio de um caminho lógico, ao abrigo do caráter circunstancial do tempo.
Ele questiona o conceito de tempo no próprio ponto de sua origem e constituição, surpreendendo-o ao nascer e suspendendo (epokhé) todas as determinações naturais e empíricas.
Na medida em que é manancial primário, o tempo sempre é irrupção de alguma coisa, e não já uma composição.
Husserl afirma que a consciência se estrutura segundo modalidades temporais, e que seu caráter duplo e incindível unifica os modos de uma consciência se relacionar com outra. Essa atividade de síntese se realiza no fluxo da consciência, na qual se desenvolve numa temporalidade própria, articulando-se segundo estruturas comuns a cada momento de consciência A posição husserliana parece se sustentar na tese de que a consciência é uma unidade em si que é estruturalmente fluxo, não uma unidade ligada a outras unidades. Essa unidade é constitutiva da pluralidade da consciência.
Ela revela a natureza da seqüência (e dos nexos) entre os instantes reais que faz com que digamos que um determinado evento tem uma duração. Como se sabe, esse problema levou Husserl a introduzir a noção de retenção: um ponto originário que liga os momentos do fluxo como a duração, o fluir, e assim por diante. Não há nenhuma intenção que não esteja vinculada a uma “segunda intenção” (retenção) que a integra e a torna possível.
Isso induz a afirmar que a consciência não é somente consciência, mas fluxo de consciência: não já no sentido de uma consciência interna ao fluxo, mas no sentido de que ela, em sua singularidade, conserva o conteúdo percebido, mesmo quando já não o é.
Cada experiência nossa, cada percepção nossa, mesmo a mais simples sensação, é a ressonância da sensação de viver em uma continuidade, não o trânsito de um momento para o outro.
Essa seqüência de momentos isolados, desprovida de descontinuidade e que restabelece a impressão de um fluxo, se origina na consciência.
A experiência do tempo é determinada por uma instantaneidade não apenas intencional, mas também, indissoluvelmente, retencional e tem lugar na consciência.
A consciência do tempo é, portanto, consciência de um tempo e de um ritmo extremamente mutáveis. Isso implica que tempos cronologicamente iguais podem ser consideravelmente desiguais no plano da vivência.
Só recentemente os estudiosos de ciências cognitivas começaram a observar que as emoções estão na base dos processos e das dinâmicas da mente humana. A consciência começa como um sentimento, um tipo peculiar de sentimento, e que consciência e emoções estão estritamente vinculadas, na medida em que a consciência está indissoluvelmente ligada ao sentimento do corpo.
A relação da consciência com sua temporalidade é extremamente complexa. Ela não admite aceitar a fórmula antropológica segundo a qual “o homem é o seu corpo”. A consciência é mais do que seu corpo que, ao viver continuamente, transcende.
Esse transcender não implica algum dualismo de mente e corpo, mas uma intensa experiência unitária. Em toda decisão, atividade ou determinação da experiência, essa unidade nunca é questionada
Essa consciência encarnada tem como uma co-relação com a própria temporalidade.
1.1.4 A filosofia cartesiana
Para analisar a intencionalidade da consciência husserliana, é importante entender o caminho percorrido por Descartes, porque a sua filosofia, segundo Husserl, confere a certas verdades apodíticas, verdades verdadeiras, evidentes, incontestavelmente demonstradas, de onde toda filosofia deve partir.
Descartes formulou o método filosófico para chegar à ciência verdadeira, radical e sem preconceitos. Este método consiste, inicialmente, em duvidar, em suspender toda crença, todo o conhecimento que até então acreditávamos ser verdadeiro e tudo aquilo que nos era dado pelos sentidos. Estes nos enganam e uma vez que nos tenham enganado é razoável que não acreditemos neles. Mas ao colocar em dúvida o que me foi dado, não posso duvidar de que enquanto penso sou alguma coisa.
Essa é a primeira verdade cartesiana e Husserl vai denominá-la de intuição originária, da qual devemos partir se queremos chegar ao conhecimento indubitável, que não se pode duvidar, conhecimento certo.
Porém, segundo Husserl, por que Descartes, mesmo tendo chegado à intuição originária, não fez fenomenologia?
Ora, o erro de Descartes, afirma Husserl, foi ter concebido o “ego como uma substantia cogitans separada, uma mens sive animus humana, ponto de partida de raciocínios de causalidades.” Pois ao conceber o ego como uma substância que é o ponto de partida para todo conhecimento, Descartes desconsiderou toda a relação do eu com os objetos, que é, na verdade, a fonte de todo conhecimento e raciocínio. Assim, para garantir a verdade, Descartes recorreu à idéia de Deus e das matemáticas, admitindo-as como verdadeiras, e, por conseguinte, recaindo, novamente, na atitude natural.
1.1.5 A intencionalidade da consciência: resultado da suspensão do mundo
Para elaborar uma filosofia radical e sem pré-conceitos é necessário, segundo Husserl, fazer uma redução fenomenológica. Esta redução consiste em colocar toda a existência do mundo dado pela atitude natural “entre parênteses”, porque dele não podemos extrair nenhuma verdade apodítica.
Na atitude natural, estamos voltados para o mundo, no qual nos encontramos e admitimos que todas as coisas presentes no mundo possuem uma existência em si, ou seja, existem independente do sujeito que as percebam, embora possamos representá-las na consciência.
Ora, todas as coisas que estão presentes no mundo nos aparecem sob várias perspectivas, em um agora continuamente novo, de longe, de perto, sob um determinado ponto, sob outro, etc.
Como as coisas podem nos aparecer de vários modos no mundo dado como existente, logo, não podemos delas extrair nenhuma verdade.
1.1.6 O eu transcendente e fenomenológico
Se quisermos fundar uma filosofia verdadeira, devemos nos desconectar do mundo dado como existente, porque nas vivências que temos desse mundo não podemos encontrar nenhuma verdade apodítica.
Porém, ao colocar este mundo transcendente em suspensão, aparece diante de nós o mundo da consciência. Neste mundo da consciência, parece que possuímos então algo de absoluto. No entanto, para encontramos o que aí existe de absoluto, devemos realizar uma epoché fenomenológica transcendental.
Husserl elaborou alguns conceitos-chave que o levaram a afirmar que para estudar a estrutura da consciência seria necessário distinguir entre o ato de consciência e o fenômeno ao qual ele é dirigido (o objeto-em-si, transcendente à consciência).
O conhecimento das essências seria possível apenas se “colocamos entre parênteses” todos os pressupostos relativos à existência de um mundo externo. Este procedimento ele denominou epoché.
Pois o eu com as suas vivências, aparece, inicialmente, para mim como algo presente no mundo e, como filósofo que procura a verdade apodítica, devemos colocar o eu psicológico também entre parênteses, restando somente o eu transcendental.
Acerca disso, Husserl afirma:
“ pela epoché fenomenológica, reduzo o meu eu humano natural e a minha vida psicológica – domínio da minha experiência psicológica interna – ao meu eu transcendental e fenomenológico, domínio da experiência interna transcendental e fenomenológica”. HUSSERL
Assim, após ter colocado o mundo e o eu psicológico entre parênteses e ter atingido o eu transcendental fenomenológico, é possível construir uma ciência puramente descritiva da consciência pura transcendental.
Ora, a primeira evidência apodítica que temos na consciência, após a suspensão do mundo husserliano e do cartesiano, é o eu penso. Mas, ao contrário de Descartes, que afirmava ser o eu penso a fonte de todo conhecimento, Husserl contesta-o, afirmando que quando eu penso, penso sobre alguma coisa.
Não há um pensamento desprovido de uma relação com os objetos. Na verdade, são estes objetos que ao relacionarem-se comigo, constituem o meu eu. Neste sentido, o resultado da epoché fenomenológica não é somente o eu penso, mas também o seu objeto de pensamento, ou seja, não só o ego cogito, mas o cogito cogitatum.
Por essa razão, Husserl propõe-se voltar às coisas mesmas; retornar às intuições mais originárias, porque é delas que emerge todo o conhecimento.
Voltar às coisas mesmas significa o retorno daquilo que nos aparece como algo experimentado, vivido, conhecido, mas que não é dado como algo existente no mundo. E todas as coisas que aparecem à consciência de modo puro após a epoché fenomenológica são os fenômenos.
Foi essa peculiaridade dos fenômenos aparecerem sempre a uma consciência que permitiu a Husserl romper com a dicotomia da atitude natural que afirmava a existência de um mundo exterior e de um mundo interior. Pois tudo o que existe está na relação entre os objetos e a minha consciência. O mundo também é um fenômeno que tem a pretensão à existência, porque ele, enquanto meu, não é um puro nada.
Ao contrário, o mundo é a fonte de toda a minha experiência, de toda a minha consciência. A consciência, segundo Stegmüller, em Husserl, possui três definições, a saber:
· A consciência como o entrelaçamento das vivências psíquicas empiricamente verificáveis numa unidade defluxo de vivência;
· A consciência como a percepção interna dessas próprias vivências
· A consciência como designação que resume todas as vivências intencionais.
Essas três modalidades de consciência estão ligadas uma a outra, contudo, Husserl prefere a terceira definição, porque é somente nas vivências intencionais presentes na consciência que um objeto é significado, visado.
Mas de que modo podemos ter consciência dos objetos?
Para responder a essa pergunta, Husserl propõe que retornemos ao mundo interior ou transcendental, onde encontramos os objetos da consciência sob a forma ideal.
Porque, o objetivo da fenomenologia é investigar como o fenômeno apresenta-se à consciência. E a consciência é sempre consciência de alguma coisa, ou seja, é aquilo que dá sentido às coisas. Pois as coisas em si não têm sentido, nós é que as interpretamos, ou seja, é somente na consciência que as coisas têm sentido. Desse modo, a consciência está sempre direcionada para um objeto e o “objeto só pode ser definido em relação a uma consciência, ele é sempre objeto-para-um-sujeito.”
Assim, podemos dizer que existe um objeto intencional na consciência. Isso significa que o objeto só tem sentido para uma consciência e que a sua essência é sempre o termo de uma visada e sem esta visada não haveria nenhum objeto. Desse modo, Husserl define intencionalidade como:
“a particularidade intrínseca e geral que a consciência tem de ser consciência de qualquer coisa, de trazer, na sua qualidade de cogito, o seu cogitatum em si próprio.”
Assim entendemos que a intencionalidade representa esse direcionamento em relação ao objeto. A consciência é sempre consciência de alguma coisa e o objeto é sempre para uma consciência.
Sem essa relação consciência-objeto não haveria nem consciência nem objeto.
Além disso, todo estado de consciência visa alguma coisa. E, por conseguinte, a consciência traz em si mesmo o seu objeto receptivo. De modo que todo querer, todo amar, todo perceber corresponde a algo querido, a algo amado, a algo percebido. Dessa forma, afirmamos a existência de uma intencionalidade.
Isto significa que o objeto só tem sentido para a consciência, de modo que a essência do seu objeto refere-se ao termo que visa um objeto. Sem esta visada não haveria possibilidade de falar sobre o objeto.
Para tornar a análise intencional mais clara, tomemos como exemplo, qualquer objeto concreto. Na atitude natural, afirmamos, primeiramente, que ele existe neste ou naquele lugar. Posteriormente, afirmamos que ele está representado na consciência daquele que a percebeu. Haveria, assim, portanto, dois objetos: um no mundo e outro representado na consciência. Ora, Husserl rejeita esses dois modos de conhecer o objeto. Pois se nos dirigirmos ao objeto em si, ou seja, àquele que está presente neste ou naquele lugar, não conheceremos nada dele; do mesmo modo, nada conheceremos se nos direcionarmos para o objeto representado na consciência. Por essa razão, Husserl propõe o retorno “às coisas mesmas”, ou seja, à vivência original do objeto. É dessa vivência original que podemos conceber um objeto no mundo.

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