quinta-feira, 22 de outubro de 2009

A disciplina da Filosofia na grade curricular do ensino médio no Brasil.

Em educação, existe uma diferença entre conteúdo curricular e componente curricular. O primeiro é o assunto que se trata na escola. O segundo é o nome da matéria.

Durante décadas, Filosofia deixou de ser um componente curricular no ensino médio. Mesmo que não haja uma disciplina com esse nome, nota-se a importância do conteúdo curricular de Filosofia nas escolas.

O governo federal brasileiro resolveu tornar obrigatórias as disciplinas de filosofia e sociologia na grade curricular do ensino médio. Essa medida traz uma serie de implicações porque, especialmente na disciplina de filosofia, o déficit de professores é grande, sem considerar a falta de preparo acadêmico já que a motivação para o estudo da filosofia esta fora de moda, porque o mundo se inclina para o consumismo e sua imagem, e deixam de lado o culto do pensamento.

Foram 37 anos de descaso para com a filosofia nas salas de aula. Desde 1971 não se ouvia mais dizer sobre filosofia e sociologia nas escolas e agora querem resgatar uma disciplina clássica que provoca desconfiança e desinteresse dos alunos contemporâneos e por conta do superficialismo da maioria dos docentes que confundem a disciplina da filosofia com a idéia de autoajuda ao invés da prática investigativa.

Para essa geração que nasceu com a primazia sensorial da imagem sobre a leitura, com a internet, os games, a televisão, não é fácil incutir os hábitos da leitura, até porque, jovens e adolescentes vêem a leitura como algo nada prazeroso. Nisso entendemos que pouco repertório existe para ser explorado já que o conteúdo filosófico esta impregnado às letras, ou seja, é preciso ler.

Se por um lado isso traz certa insegurança, por outro nos abre possibilidades de construção e reflexão, sobretudo na perspectiva da formação da consciência crítica ou, se preferirmos, a passagem da consciência ingênuo-mitológica para a visão racional-crítica.
Nesta perspectiva, autores contemporâneos têm discutido o ensino da filosofia no nível médio sob o referencial pedagógico. Isto quer dizer que "o próprio" da filosofia no ensino médio não parece ser exatamente o mesmo do que lhe é característico num curso universitário de filosofia, para alunos que querem estudar filosofia.

Esta disciplina, quando pensada ao lado de diversas outras na grade do ensino médio, parece remeter a um método propedêutico de si mesma; em outras palavras, aquilo que os alunos universitários de filosofia fazem em seu estudo - análise de texto, encadeamento lógico-sistemático, levantamento de teses, comparação de autores e idéias etc. - parece exigir algo anterior: o exercício filosófico. .
Diversas são as posições e longe estamos de um consenso no Brasil. “a meta da filosofia é 'formar e exercer formalmente o pensamento', ou seja, 'ensinar a pensar especulativamente”. Tal enfoque, voltado para o ensino médio, parece fugir aos dois modos mais conhecidos de ensino da filosofia: aquele que se organiza pelo estudo de temas filosóficos e aquele que tem a história da filosofia como o próprio programa de estudos.

Tal idéia do estudo da filosofia como exercício parece dispensá-la de fornecer um conteúdo fechado ao aluno do nível médio. Sílvio Gallo propõe um método de ensino alternativo tanto à adoção de temas quanto da história da filosofia (GALLO, 2006).

O autor desenvolve aquilo que chama de "três possíveis eixos curriculares": o histórico, o temático e o problemático. No primeiro, o professor segue a cronologia histórica da filosofia ou dos sistemas filosóficos; no segundo, há uma tentativa de aproximação maior entre a filosofia e a realidade dos alunos através do estudo de temas; no terceiro, avança-se para além dos temas ou da história, trabalhando muitas vezes com eles, buscando tomar a filosofia como uma ação, uma atividade, posto que se organiza em torno daquilo que motiva e impulsiona o filosofar, isso é, o problema.

A filosofia enquanto exercício de problematização nos leva a considerar a importância dos conceitos e da argumentação. Isso implica afirmar que o exercício da problematização pelo evidenciar dos conceitos e pela compreensão do encadeamento argumentativo pode possibilitar ao aluno compreender os princípios segundo os quais as coisas se apresentam deste ou daquele modo.

Gallo afirma que o entendimento da filosofia como atividade, como ação, leva-nos a entendê-la como um "ato do pensamento". no ensino da filosofia "não basta que ensinemos seu produto, mas é essencial que façamos a própria experiência". Trata-se muito mais de levar os alunos à experiência de "orientar-se no pensamento".

O problema aparece, pois, como possibilidade de algo novo, de novo conhecimento ou de nova forma de interpretação sobre conhecimentos anteriores. É preciso que o professor de filosofia deixe que os alunos fabriquem suas próprias questões, porque a "arte de construir um problema é muito importante: inventa-se um problema, uma posição de problema, antes de se encontrar a solução".
A importância da geração de problemas por parte dos alunos está, sobretudo, no fato de que "os problemas filosóficos não se encontram nos textos dos filósofos e sequer podem ser comunicados pelos professores de filosofia". De onde, então, nascem os problemas? Do cotidiano real dos alunos; "emergem dos acontecimentos e das experimentações" com os quais se envolvem (GALLINA, 2004, p.361).

Desse cotidiano real, os docentes intelectuais não serão iluministas a ponto de darem soluções automáticas para quem esta na “caverna”. Eles serão pessoas humildes que auxiliem os alunos a terem autonomia, ou seja, a capacidade de escolher, a pensar e refletir por si mesma, mas sem que isso implique a individualização da vida. Ao contrário, ser humano é ser junto.

A pergunta qual a função da filosofia na educação básica, de maneira bem rústica, eu diria que: é repartir possibilidades. É dar esperança aos projetos de vida, resgatar o gosto pela investigação do conhecimento e mostrar a ciência como ferramenta da liberdade e, a educação, como veículo de solidariedade e fraternidade.

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