quinta-feira, 5 de novembro de 2009

ONTOLOGIA

A partir do momento em que Aristóteles falou de uma filosofia primeira que incluiu nela quer o estudo do ente enquanto ente ou de um ente principal ao qual se subordinam os demais entes, abriu-se a possibilidade de distinguir entre aquilo a que depois se chamou ontologia e aquilo que, com mais frequência, se entendeu por metafísica.

Só nos começos do século dezessete surgiu o termo ontologia. Note-se que os autores que usaram ontologia eliminaram o caráter primeiro desta ciência perante qualquer estudo especial.

Por isso, se pôde continuar a identificar a ontologia com a metafísica, foi com uma metafísica geral e não com a metafísica especial.

Com o nome ontologia designava-se o estudo de todas as questões que afetam o conhecimento dos gêneros supremos das coisas.

A sobreposição da ontologia à metafísica geral representaria já, portanto, o primeiro passo, para aquele mencionado processo de divergência nos significados dos vocábulos metafísica e ontologia.

Com efeito, tudo o que se referisse ao mais além do ser visível e diretamente experimentável ficaria como objeto da metafísica especial, que seria, efetivamente, uma transfísica.

A metafísica geral ou ontologia ocupar-se-ia, em contrapartida, só de formalidades, embora de um formalismo diferente do lógico.

Entende-se a ontologia de maneiras diferentes: por um lado, concebe-se como ciência do ser em si, do ser último ou irredutível, de um primeiro ente em que todos os de mais consistem, isto é, do qual dependem todos os entes. Neste caso, a ontologia é verdadeiramente metafísica, isto é, ciência da realidade e da existência no sentido próprio do vocábulo.

Por outro lado, a ontologia parece ter como missão a determinação daquilo em que os entes consistem e ainda daquilo em que consiste o ser em si.

Nesse caso é uma ciência das essências e não das existências; é como ultimamente se frisou teoria dos objetos.

Alguns autores assinalaram que esta divisão entre a ontologia enquanto metafísica e a ontologia enquanto ontologia pura (ou teoria formal dos objetos) é extremamente útil na filosofia e que o único inconveniente que apresenta é de caráter terminológico.

Com efeito, argumentam esses críticos, convêm usar o vocábulo ontologia só para designar a ontologia como ciência de puras formalidades e abandoná-lo inteiramente quando se trata da metafísica. A invenção do termo ontologia expressou já por si mesma a necessidade dessa distinção.

Outros autores pensavam que a divisão é deplorável, pois quebra a unidade da investigação do ser.

Como disciplina especial da filosofia, a ontologia foi cultivada durante os séculos dezoito e dezenove não só por autores que seguiram a tradição escolástica, mas também por outros autores e tendências.

Igual diversidade existe no século vinte.

Para Husserl, que considera a nossa disciplina como ciência de essências, a ontologia pode ser formal ou material.

A ontologia formal trata das essências formais, isto é, daquelas essências que convêm a todas as demais essências.

A ontologia material trata das essências materiais e, por conseguinte, constitui um conjunto de ontologias às quais se dá o nome de ontologias regionais.

A subordinação do material ao formal faz segundo Husserl, que a ontologia formal implique ao mesmo tempo as formas de todas as ontologias possíveis.

A ontologia formal seria o fundamento de todas as ciências; a matéria seria o fundamento das ciências e fatos, mas como qualquer fato participa de uma essência, qualquer ontologia material estaria por sua vez fundada na ontologia formal.

Para Heidegger, há uma ontologia fundamental que é precisamente a metafísica da existência.

A missão da ontologia seria, neste caso, a descoberta da constituição do ser da existência. O nome fundamental procede de que, por ela, se averigua aquilo que constitui o fundamento da existência, isto é, a sua finitude.

Mas a descoberta da existência como tema da ontologia fundamental não é, para Heidegger, mais que um primeiro passo da metafísica da existência e não toda a metafísica da existência.

A ontologia é, na realidade, única e exclusivamente, aquela indagação que se ocupa do ser enquanto ser, mas não como uma mera entidade formal, nem como uma existência, mas como aquilo que torna possíveis as existências.

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