LINGUAGEM
Desde os pré-socráticos, muitos pensadores gregos equipararam linguagem e razão: ser um “animal racional” significava, em grande parte, ser “um ente capaz de falar” e, ao falar, refletir o universo.
Deste modo, o universo podia falar, por assim dizer, de si mesmo, através do homem.
A linguagem equivalia à estrutura inteligível da realidade. Desde os começos da “filosofia da linguagem”, vemos até que ponto está estreitamente unido a questão da linguagem e a questão da realidade enquanto realidade.
Não obstante as diferenças entre Heráclito e Parmênides, ambos concordavam, pelo menos, em considerar a linguagem como um aspecto da realidade: A “realidade falante”.
Em suma, a linguagem é, para muitos pré-socráticos “a linguagem do ser”. Os sofistas examinaram a linguagem quer do ponto de vista gramatical quer do ponto de vista retórico e humano.
Um dos seus grandes problema foi o de examinar em que medida, e até que ponto, os nomes da linguagem são ou não convencionais. Embora as suas teorias não possam reduzir-se a uma só fórmula, era muito comum, entre muitos pensadores, propugnar uma doutrina segundo a qual os nomes são convenções estabelecidas pelos homens para se entenderem.
Este problema foi tratado por Platão no seu diálogo CRÁTILO. Nesta obra aparecem Crátilo (que representa Heráclito e defende a doutrina de que os nomes estão naturalmente relacionados com as coisas) e Hermógenes (que representa Demócrito ou Protágoras e defende a doutrina de que os nomes são convenções).
Cada uma das posições tem as suas dificuldades, que podemos esquematizar assim:
1) Suponhamos que “os nomes o são por natureza”. Isto não se refere somente à origem, mas também à índole dos nomes.
Significa que:
a) cada nome designa uma coisa; nem mais nem menos que essa coisa. A isto pode opor-se que a linguagem se compõe de partículas como as proposições, as conjunções, etc., que não são nomes.
b) Qualquer modificação introduzida num nome faz dele outro nome que designa outra coisa, ou nenhum nome, o qual não designa nada. A isto pode replicar-se a que a maior parte dos nomes tem significados que vão mudando com o tempo.
c) Tem de haver tantos nomes quantas as coisas; os sinônimos são, em princípio, impossíveis. Mas todos os nomes têm amiúde um significado Vago: o nome não reproduz a realidade tal como a imagem não reproduz a realidade, pois, nesse caso, não seria um nome ou imagem, mas a própria realidade.
d) Pronunciar ou escrever um nome falso é o mesmo que pronunciar ou escrever uma série de sons ou signos sem significação. Pode, contudo, fazer-se notar que há proposições falsas que têm significação, pois esta última surge no âmbito de uma linguagem e não no das coisas.
2) Suponhamos, pelo contrário, que os nomes são convencionais. Isto significa que:
a) podem mudar-se os nomes à vontade. Contudo, não se pode ignorar que a linguagem não é composta por uma série de nomes independentes entre si, mas que aparece num contexto.
b) cada nome pode designar qualquer coisa. Mas não se deve onfundir a significação com a denotação.
c) Há um número, em princípio infinito, de nomes para cada coisa. Isto talvez possa acontecer numa linguagem formalizada por convenção, mas não numa linguagem não formalizada, isto é, natural.
Formulamos as ideias fundamentais do Crátilo numa terminologia moderna para mostrar também que os problemas levantados por Platão são igualmente problemas atuais passíveis de discussão.
Aristóteles e os estóicos fizeram muitas considerações sobre a linguagem. Excetuando as diferenças, foi comum a ambas as doutrinas a introdução de outro elemento além da linguagem e da realidade: é o conceito ou noção que pode ser entendido como um conceito mental ou lógico.
Os problemas da linguagem complicam-se desde então com a questão da relação entre a expressão linguística e o conceito formal e cada um destes conceitos, enquanto expressos linguisticamente, e a realidade.
Tudo isso fez com que os problemas da linguagem não fossem estritamente gramaticais, mas também lógicos. Isso aconteceu, ao longo da idade média, durante a qual a posição assumida na doutrina dos universais teve grande repercussão na concepção da linguagem.
Mas ocuparam-se mais diretamente da natureza e da forma da linguagem os autores que examinaram o problema da significação.
Só na idade moderna aparece uma “filosofia da linguagem”. Os filósofos modernos assumiram duas atitudes gerais relativamente à linguagem: uma atitude de confiança na linguagem e no seu poder lógico (representada, sobretudo pelos racionalistas) e uma atitude de desconfiança para com a linguagem (representada, sobretudo pelos empiristas).
Foram estes últimos que puseram em relevo que a linguagem é um instrumento capital para o pensamento, mas que, ao mesmo tempo, se deve submeter a linguagem a crítica para não cair nas armadilhas que “o abuso da linguagem” nos pode fazer.
Durante o século vinte, a filosofia da linguagem alcançou o seu maior florescimento. Chegou-se até a considerar a análise da linguagem como a ocupação principal da filosofia.
As tendências ditas analíticas, bem como as neopositivistas, sobressaíram no interesse pelas questões relativas à estrutura da linguagem ou das linguagens.
Para Wittgenstein, a linguagem aparece primeiro como uma espécie de impedimento para conseguir a “linguagem ideal” onde a estrutura da linguagem corresponde á realidade.
Ao abandonar esta noção de linguagem ideal, Wittgenstein lançou a investigação da linguagem por outras vias.
No seu livro INVESTIGAÇÕES filosóficas, afirma que o mais importante na linguagem não é a significação mas o uso.
Para entender uma linguagem deve-se compreender como funciona. Ora, pode comparar- se a linguagem a um jogo; há tantas linguagens quantos os jogos de linguagem.
Portanto, entender uma palavra numa linguagem não é primeiramente compreender a sua significação, mas saber como funciona, ou como se usa dentro de um desses jogos.
Mas não foi só a filosofia analítica que deu esta importância capital à linguagem. Em Heidegger, a linguagem aparece, primeiro, sob a forma da tagarelice como um dos modos como se manifesta a degradação ou inautenticidade do homem.
Perante este modo inautêntico, a autenticidade parece consistir não na fala ou em alguma linguagem, mas no apelo da consciência.
É necessária uma linguagem na qual o ser não seja forçado a aparecer.
Portanto não é a linguagem científica (que constitui a realidade como objeto) nem técnica (que modifica a realidade para se aproveitar dela). Resta apenas um tipo de linguagem que não é descritivo, nem explicativo, nem interpretativo, mas “comemorativo”.
A linguagem como um poetizar primeiro é o modo como pode efetuar-se “a irrupção do ser”, de tal modo que a linguagem pode converter-se então num “modo verbal do ser”.

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